Coisas que já não aceito numa amizade: limites, respeito e amor-próprio

Há amizades que perdemos. Outras que simplesmente deixamos de aceitar da mesma forma.

Durante muito tempo, achei que manter uma amizade significava estar sempre presente, compreender tudo, perdoar vezes sem conta e aceitar determinadas coisas apenas porque gostava daquela pessoa. Hoje já não penso assim...

Com o tempo, algumas experiências ensinaram-me que gostar de alguém não significa aceitar tudo. Que compreender o outro não significa ignorar aquilo que sentimos. E que estabelecer limites numa amizade não faz de nós pessoas frias ou egoístas. Nem sempre estamos perante uma amizade tóxica no sentido mais evidente da palavra. Às vezes, simplesmente começamos a perceber que determinada relação deixou de ser saudável para nós. 

Não espero amizades perfeitas. Sei que todas as relações têm fases menos boas, discussões, diferenças e momentos em que podemos falhar. Eu própria falho, e não tenho problema nenhum em dizer isso. Mas existem coisas que, hoje, já não consigo ignorar.

  • Quando sinto que sou a única a tentar

Houve uma altura que nem percebia que era sempre eu que tentava manter certas amizades "vivas". Era eu que mandava mensagem, que perguntava como estava, que tentava combinar alguma coisa e que procurava manter a ligação. Até que, um dia, parei, e percebi o silêncio. Hoje sei que uma amizade não precisa de ser 50/50 todos os dias. Há momentos em que uma pessoa precisa mais da outra e isso faz parte. Mas não pode ser sempre a mesma pessoa a carregar a relação. Uma amizade saudável também precisa de reciprocidade

Quero sentir que existe vontade do outro lado e que não sou apenas eu a tentar manter algo que já só existe porque continuo a insistir.


  • Ser procurada apenas quando precisam de alguma coisa

Não quero sentir que alguém só se lembra de mim quando precisa de ajuda, de um favor, de companhia ou de alguém para ouvir os seus problemas. Gosto de estar presente para as pessoas que amo. Gosto de ouvir, apoiar e ajudar quando posso. Mas também quero poder partilhar as minhas coisas. Quero conversas que não sejam apenas sobre problemas. Quero rir, sair, falar sobre coisas aleatórias e sentir que existe interesse em mim para além daquilo que posso oferecer. Uma amizade não deveria existir apenas quando somos úteis.


  • Falta de respeito disfarçada de brincadeira

Há comentários que ficam. Há “piadas” que tocam precisamente nas nossas inseguranças. E, durante muito tempo, talvez tenha pensado que estava a exagerar por me sentir magoada. Hoje já não quero fazer isso comigo própria.

Posso rir de uma brincadeira, mas também posso dizer que determinada coisa me magoou. E uma amizade saudável deve permitir isso. Se eu digo que algo me magoou, não quero ouvir que “não sei brincar” ou que “estou demasiado sensível”. Respeitar os limites de alguém também é uma forma de carinho.


  • Pessoas que não conseguem ficar genuinamente felizes por mim

Quero poder contar uma conquista sem sentir que estou a incomodar alguém.

Não espero que todas as pessoas estejam sempre tão entusiasmadas com a minha vida como eu estou. Cada pessoa tem os seus próprios problemas, inseguranças e preocupações. Mas existe uma diferença entre isso e sentir que a minha felicidade incomoda. Há uma diferença entre alguém estar num dia menos bom e alguém diminuir constantemente tudo aquilo que nos acontece de positivo. Hoje valorizo amizades onde podemos celebrar as conquistas uns dos outros sem transformar tudo numa comparação. Porque o sucesso de uma amiga não diminui o meu. E o meu também não diminui o dela.

  • Competição constante

Não quero amizades onde existe sempre uma comparação.

Quem está melhor.... Quem tem mais.... Quem é mais bonita.... Quem recebe mais atenção.... Quem conseguiu primeiro.... Não quero competir com as minhas amigas.

Quero vê-las crescer, conquistar coisas e tornar-se naquilo que querem ser. Quero poder dizer “estou orgulhosa de ti” sem sentir que isso me coloca atrás de alguém. A amizade, para mim, deve ser um lugar onde crescemos juntas e não um espaço onde estamos constantemente a tentar provar quem está à frente.


  • Manipulação, culpa e medo de dizer “não”

Hoje sei que posso dizer não.... Posso não ter vontade de sair.... Posso precisar de espaço..... Posso não conseguir ajudar.... Posso mudar de opinião.

E nada disso significa que deixei de gostar de alguém.

Não quero amizades onde tenho medo de estabelecer limites porque sei que a outra pessoa vai fazer-me sentir culpada por isso. Uma amizade não deveria depender da nossa capacidade de agradar constantemente ao outro. Aprender a dizer “não” também é perceber que colocar limites não significa rejeitar alguém. Às vezes, é precisamente o contrário: é tentar preservar a relação sem nos abandonarmos a nós próprios. Se este é um tema com o qual também tens dificuldade, escrevi mais profundamente sobre isso em “Como dizer não sem culpa e aprender a colocar limites”.


  • Ter de esconder partes de mim

Não quero sentir que tenho de medir cada palavra, esconder os meus sonhos ou mudar a minha personalidade para ser aceite.

Quero poder ser eu mesma.

Com as minhas inseguranças, as minhas opiniões, os meus sonhos, os meus defeitos e até os meus dias menos bons. Claro que todos nós devemos aprender a respeitar os outros, reconhecer quando erramos e melhorar determinados comportamentos. Mas isso é diferente de sentir que precisamos de deixar partes de nós à porta para conseguir pertencer. Uma boa amizade não deveria fazer-nos sentir que precisamos de ser menos para sermos aceites.


  • Já não quero confundir amor com obrigação

Talvez esta seja uma das maiores aprendizagens. Podemos gostar muito de alguém e, ainda assim, perceber que aquela amizade já não nos faz bem. Podemos ter boas memórias com uma pessoa e reconhecer que já não existe espaço para ela na nossa vida da mesma forma. Podemos perdoar alguém sem voltar a dar-lhe o mesmo acesso à nossa vida. Podemos amar alguém à distância. E podemos afastar-nos sem transformar essa pessoa num vilão. Nem todas as amizades terminam porque alguém é má pessoa.

Às vezes, simplesmente crescemos em direções diferentes. E percebemos, quando nos devemos afastar de uma amizade, não significa necessariamente apontar culpados. Às vezes, significa apenas aceitar que uma relação que foi importante numa determinada fase da nossa vida já não combina com a pessoa em que nos estamos a tornar.

Hoje não procuro amizades perfeitas. Procuro amizades verdadeiras.

Pessoas com quem possa rir, conversar, crescer, discordar, pedir desculpa e continuar a existir carinho. Pessoas que estejam presentes não apenas quando tudo está bem, mas também quando a vida não está tão bonita. Pessoas com quem possa ser eu sem sentir que tenho de diminuir quem sou para caber numa amizade. Também comecei a perceber que estabelecer limites não significa cortar pessoas da nossa vida ao primeiro problema. Significa perceber aquilo que conseguimos aceitar, aquilo que precisamos de conversar e aquilo que já não estamos dispostos a continuar a normalizar. Talvez crescer seja também isto: perceber que nem todas as pessoas que amamos precisam de continuar a fazer parte da nossa vida da mesma maneira.

E que estabelecer limites não significa deixar de ter coração. Significa começar a ter também amor-próprio. Talvez valha a pena fazer uma pergunta:

As amizades que mantenho hoje permitem-me ser quem sou ou obrigam-me constantemente a diminuir-me para continuar a pertencer?

Não precisamos de tomar decisões precipitadas. Mas talvez devêssemos começar a prestar mais atenção à forma como determinadas relações nos fazem sentir. Porque amizade também deve ser um lugar seguro. Um lugar onde existe respeito, reciprocidade, liberdade e carinho. Hoje já não tenho tanto medo de perder amizades. Tenho mais medo de me perder a mim própria para conseguir mantê-las. E é isso.


Com carinho, 

         Little Bella


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